O Salão do Grande Tribunal é sala subterrânea de pedra fria e fúria ainda mais gélida. Tochas tremulam em suportes de ferro em forma de anjos chorando; as bandeiras de uma dúzia de nações libertadas pendem em farrapos, ao lado de manchas de sangue fresco que jamais serão completamente removidas.
A Aliança era composta por cinco raças, mas, antes do império, os humanos se dividiam em vários reinos menores diferentemente dos orcs, que em sua maioria eram nômades; dos halflings, que tinham seus campos; dos elfos, com sua cidade de pedra polida; e dos anões, nas montanhas e minas.
No centro, no antigo Pódio do Acusado feito da mais polida obsidiana e envolto por andares de arquibancadas, ergue-se o que restou da casa de WintherWolf. Os observadores eram representantes de todas as raças que compunham a aliança rebelde, todos prestando atenção, exceto os orcs, que pareciam entediados.
Outrora o símbolo da propaganda do Império, a imperatriz, com sua pele como porcelana, de cabelos prateados, cujo sorriso cunhado nas cada vez menores moedas de ouro, prometia glória enquanto os verdadeiros monstros governavam por trás do trono, ela agora não passava de uma figura trêmula. Seus curtos cabelos branco-prateados estavam opacos e emaranhados, pendendo imundos sobre um rosto que se esquecera de como ser qualquer coisa além de temeroso. Os olhos dourados, emoldurados por um rosto era jovem e delicado, antes luminosos, que estavam pintados em cada peça de propaganda, agora estavam arregalados, vidrados e permanentemente úmidos, movendo-se como os de um animal encurralado.
Seus pulsos estavam por grilhões de ferro gravados com runas, grandes demais para seus braços finos, as correntes tilintavam a cada respiração ofegante. Os restos de seu vestido imperial, outrora de uma seda negra como azeviche eram pouco mais que trapos manchados, agarrados a um corpo que passara meses em jejum. Hematomas espalhavam-se por suas clavículas, que se projetavam como asas quebradas. Quando tentava falar, sua voz era um sussurro rouco que se interrompia em soluços assustados.
No alto do pódio estavam os elfos. Entre eles, destacava-se a Alta Juíza Laylael, uma antiga nobre alta-elfa com olhos prateados e uma voz como o inverno cortando a pedra. Seus cabelos eram dourados e ela não parecia ter mais que vinte e dois anos, mas ainda lembrava do tempo anterior ao império.
Seu vestido era branco, opulento e imaculado, como o de uma rainha de gelo. Ela recitava os crimes de horror cometidos pela realeza em uma cadência acadêmica, perfeita e monótona, depositando o peso de cada atrocidade sobre a garota trêmula à sua frente.
Melianne WintherWolf estremecia a cada nome, a cada vila, a cada grito lido em voz alta. Lágrimas escorriam silenciosamente; as correntes não a deixavam enxugá-las. Quando finalmente lhe foi permitido responder, sua voz estava fraca devido às noites de choro:
— Eu... eu nunca quis nada disso — conseguiu dizer, a voz se fragmentando em soluços. — Eles me coroaram quando eu tinha treze anos... Eu nunca quis... Eles... eles me mostraram o que acontecia com quem desobedecia. Por favor... eu sempre fui apenas o que me foi mandado, o que os nobres mandavam. Eu... Eu sinto muito...
Um soluço entrecortado escapou de seus lábios. O salão respondeu com vaias. Os orcs estavam irados por terem sido governados e caçados por uma carne tão fraca. Os halflings permaneciam quietos e acuados, sem entender a necessidade de tudo aquilo.
Havia os humanos cujas terras foram roubadas pelos nobres para a produção de tecidos em vez de comida, e alguns desses mesmos nobres, que um dia deram as ordens, agora fingiam não ter culpa do ocorrido.
Os juízes se inclinaram uns para os outros; a sentença já estava escrita. Morte. Lenta, pública, satisfatória. Os ombros de Melianne se curvaram. Ela parecia pequena o suficiente para ser levada pelo vento. Então, com uma voz tão fraca que quase se perdeu em meio aos uivos do público, ela sussurrou as palavras ancestrais:
— Eu... exijo um julgamento por combate. Risadas explodiram como tiros de canhão. Uma garota faminta e sem treinamento contra qualquer assassino que a Aliança Rebelde escolhesse? Era a carta de suicídio mais patética da história. A Alta Juíza Laylael virou-se para a plateia, sua voz cortando o caos. Seus olhos azuis estavam cheios de fúria contida.
— A última WintherWolf tem um campeão? Ou abriremos os portões da arena e a deixaremos sangrar até a morte?
Todos no salão prenderam a respiração. Nem os grilos pareciam se compadecer. — Pois bem. Levem-na daqui. Nos vemos na arena.
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